sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O Espelho

O espelho.
Se havia algo que ela odiava, era o espelho.
A mãe possuia uma coleção deles. Modernos, antigos, raros, bordados, delicadamente talhados. Ornamentando cada comodo da casa.
Ela nunca gostara de espelhos, mas um em especial: o espelho grande do corredor principal, aquele com a moldura talhada artesanalmente há mais de trezentos anos, o mais cobiçado, o mais adorado pela família e por qualquer visita. Aquele não era só um espelho, era sua consciência rispidamente a mostra.
Qualquer um acreditaria nas palavras, nas boas mentiras, nas cenas, no sorriso feito por trás da maquiagem sem erros. Menos o espelho. O maldito espelho que insistia em refletir seus olhos cheios de culpa e de medo, que mostrava descaradamente sua covardia e sua fraqueza, que expunha todos os sentimentos turvos que o lápis preto tentava esconder.
Seu quarto, o último do corredor, tornava inevitável o encontro com aquela imagem, sua imagem. A imagem que nenhum dos muitos amigos e conhecidos pensariam existir.
Tentava passar direto, despercebida, mas o magnetismo da sua alma com o vidro forçava-a a olhar.
E olhou. Viu seu reflexo perfeito, seus defeitos escondidos pelas bases, seus lábios desenhados, o corpo invejável, os cabelos bem cuidados, os olhos. Olhou fundo, tentando encarar seus próprios olhos. Fez-se física a imagem da dor de ser quem era. As mãos trêmulas, nó na garganta.
Junto aos cacos, gotas de um sangue vivamente vermelho misturavam-se a uma única lágrima, deixados para trás por uma aura ineditamente branca e uma coragem incomum para se libertar.



p.s.: não sei o que, de fato, me fez escrever esse texto.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Mais uma sobre o amor (o meu)

Amor é essa coisinha esquisita, essa "cosquinha" gostosa que eu sinto sempre que vejo de longe você chegar. Amor é essa força estranha que puxa meus lábios para os lados, formando um sorriso imenso cada vez que escuto um "bom dia" seu.
Amor é mais ou menos como brincar de de escorrega num arco-íris e cair de bum-bum numa nuvem fofinha. É divertido, puro.
É fazer compras no supermercado e imaginar como vai ser quando for pra nossa casa. É ficar contente com a conquista dos outros. É não conseguir contar quantas borboletas batem asas no estômago toda sexta-feira, por causa da ansiedade pelo sábado que traz você pra mim.
Amor é brincar de ser casado nos fins de semana. É deitar no colo e fazer planos bonitinhos pra uma vida a dois. É entrar em consenso depois das pequenas discussões sobre qual cachorrinho iremos ter ou quem vai arriscar a cozinhar primeiro.
É pular no seu colo sem você esperar, nem ligando para a (grande) possibilidade de caírmos um em cima do outro. É ouvir tua risada ao ouvir minha risada.
Amor é olhar você dormir e sentir lagrimazinhas escorrerem pelo meu rosto. É deixar bilhetinhos de "eu te amo" espalhados por todo seu quarto, pra você sorrir quando encontrar. É guardar o último quadradinho de chocolate amargo uma semana inteira, só pra dividir com você. É pegar tua mão e perceber a onda de sentimentos lindos que passa de mim pra você e de você pra mim. É sentir meu coração alegre ao saber que você está bem e querer arrancá-lo, de tanta dor, quando não está. É saber como você se sente, mesmo não estando perto. É sofrer um pouquinho quando bate uma insegurança boba e um medo de te perder ou de você, por algum motivo, cansar de mim.
É quase morrer de saudade no segundo seguinte em que você foi embora. É a vontade de fugir com você a cada centímetro mais próximo do fim, quando você me leva pra casa. É ter o rosto molhado e vermelho quando o sol diz "tchau" no domingo.
Amor é o que me faz querer ter você todos os dias de todas as minhas vidas. Amor é essa felicidade absoluta que passou a fazer parte de mim desde que você apareceu.
O meu amor é assim, é esse "obrigada" silencioso que mora nos meus olhos e na minha cara amassada quando acordo e vejo você. Porque teu rosto é ainda mais lindo quando você acorda, minha alma é ainda mais colorida quando encontra a sua e meu corpo é o seu corpo, assim como seu corpo é o meu. Porque o amor é isso, é descobrir o segredo de fazer de dois, um.



P.s.: "Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa"
(Zeca Baleiro)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

A um amigo Amigo


Desde pequena aprendi que todo mundo nasce com um dom.
Entre todos eles, acredito existir um especial (talvez o mais especial): o dom de ser Amigo!
O Amigo traz em si a essência de todos os outros dons. Canta pra acalmar um coração aflito, sabe sempre a palavra certa na hora certa, tem um pouquinho de médico pra cuidar de cada feridinha que transparece nos olhos de quem ele ama.
E como já dizia Vinícius, "a amizade é um sentimento mais nobre que o amor". Deve ser porque é o amor mais puro de todos os amores que a vida dá. Um tipo de "amor incondicional".
Amigo se dá por completo, nos favores impossíveis; nas lágrimas de consolo; nas vezes em que quer morrer por não conseguir, dessa vez, dissipar aquela coisinha ruim que aflige quem ele ama (mal sabendo que só esse carinho é quase toda a solução!). E o que ele pede em troca? Nada! Mas se sente imensamente bem pago quando consegue pelo menos um sorriso de alívio naquele rostinho amargurado.
E é também Amigo nas horas boas, principalmente nestas. Amigo torce, vibra, agradece, comemora cada nova conquista, cada realização tão esperada, e se orgulha!
Porque amigo não tem inveja, isso não. Amigo tem orgulho!
O Amigo é simplesmente amigo. Faz o bem sem olhar a quem. E conquista mais e mais, a cada novo dia, com suas palavras simples, mas de incomparável significância.
Sabe aquele sentimento mais bonito que a gente sente no fundinho do coração mas não consegue explicar? Não precisa explicar! Ele passa a fazer todo sentido quando você encontra um Amigo!
Mas, às vezes, o amigo vai embora.
O coração grita, esperneia, bate forte, faz pirraça, vem a mãozona da saudade para apertá-lo com a maior força do mundo, você tem certeza que vai morrer! E chora (às vezes chora muito!!). Quando pensa não aguentar mais, ele, com a voz mais serena do mundo, diz "Eu volto". E o desespero até diminui, porque a confiança é maior, o amor é maior. E você lembra de todos os sentimentos bonitos que ele te faz sentir, de todas as bagunças que aprontaram juntos, de todas as vezes em que você precisou e ele estava ali com a mão estendida, das vezes em que você venceu e ele foi o primeiro a dizer "eu sabia que você conseguiria", das vezes que você o quase decepcionou e ele passou por cima, de todas as fotos engraçadas e das risadas ao telefone, das festas de fim de ano e dos abraços aconchegantes. E a vida inteira passa na sua frente, trazendo junto uma "cosquinha" no coração, uma mistura de saudade e esperança, uma alegria um pouco triste e, principalmente, um enorme orgulho por ter tido a chance de conhecer o melhor Amigo do mundo!
E você descobre que o pra sempre nunca é tempo demais quando se tem esse amor, e descobre também que tudo, tudo mesmo, tem uma solução, quando você tem alguém assim, um amigo, um companheiro especial.
Acredito ser, este, o dom mais especial de todos os dons: o dom de ser Amigo! Mas, se eu pudesse mexer um pouquinho só na história da criação dos nomes das coisas, eu rebatizaria o nome dos dons. Não de todos. Na verdade, mudaria mesmo só o nome do dom de ser "amigo". E passaria a ser, então, o dom de ser "Luiz".


P.s.: você fará muita falta, mocinho!
Amo você!
=)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Sobre o (nosso) Amor

Era um dia qualquer de outubro de mais ou menos um ano atrás.
A garota diferente, de nome diferente e cabelos diferentes vivia mais um dos seus entediantes dias normais.
Um garoto não tão normal assim, cansado dos seus dias normais assim, sem querer, encontrou uma tal garota diferente. E seu mundo que andava um tanto sem cor ficou então um tanto rosa, tão rosa quanto o cabelo dela.
Mas como em toda história de um casal que será um dia feliz, a aproximação não é imediatamente feliz assim.
Ele sabia quem ela era (amiga de escola da irmã mais nova), ela até sabia da existência dele (irmão mais velho de uma amiga da escola), mas não era nada demais que se pudesse relevar.
Precisou apenas de tinta rosa nos cabelos, um e-mail anônimo e uma mocinha curiosa para começar a história de um amor diferente de qualquer outro amor das histórias sobre as quais se tem notícias por aí.
No começo, uma brincadeira esquisita, mas que rendia boas gargalhadas e muitos segredos entre amigos; um convite para tomar um sorvete que resultou em uma tarde inteira num banco de praça contando casos e conversando sobre música; e uma leve bronca por ter chegado tão tarde em casa.
Mais tarde vieram as novas conversas, os novos passeios, os novos olhares, o inevitável constrangimento antes (e depois!) do primeiro beijo. Mais segredos.
A garota que tinha medo de se apaixonar pensou não ser tão ruim entregar o coração. O garoto que não pensou se apaixonar, teve medo de perder o pouco (que seria muito), mas não menos importante, sentimento que descobrira ali.
As semanas passavam, e com elas, a cada vez maior necessidade que nasceu dentro daqueles dois corações.
E ninguém sabia. Era melhor assim.
Veio o primeiro mês, vieram os amigos, as datas comemorativas, os primeiros presentes, os mais alguns corações maltraçados em meio as folhas dos cadernos, agendas e blocos de anotações colocados junto ao telefone. Veio o primeiro "eu te amo", a primeira lágrima de emoção, a primeira promessa de um amor pra durar.
Passaram mais meses, mais amigos, mais beijos e carinhos, mais saudades. E chegaram os planos (quantos planos!), afinal, toda história sobre um casal que descobre o amor tem muitos planos.
As tardes em um banco de praça foram se tornando tardes deitados em um lugar qualquer, olhando um céu qualquer pensando num futuro qualquer, com cores, corações, sorrisos e uma vida feliz.
E os dois que sabiam tão pouco sobre sentimentos e não temiam pouco entregar o coração, aprendiam juntos. Descritos nas linhas de Vinícius, crescia a certeza do amor total que viveria "dentro da eternidade e a cada instante".
E como uma boa história de um amor feliz para sempre (desses que existem!), não há um ponto marcando fim, mas três pontinhos, que remetem a um longo futuro de longas histórias sobre duas pessoas (não tão normais assim) e a maior das sensações humanas...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Sobre escovas de dentes, toalhas molhadas e uma vida de nós dois.

E a cada vez que acordo e não vejo ninguém ao meu lado, penso em tudo que aconteceu desde aquele dia. E penso na saudade que meu coração reclama e na vontade de matá-la, usando de beijos e carinhos infinitos.
Penso nos planos que tenho pra mim, nos planos que tenho para você, nos planos que nós temos para uma vida de nós dois.
Olho o relógio, o calendário, olho, mais uma vez, o espaço vazio ao meu lado na cama.
Sorrio sem pretensão.
A noite escura que entra pela janela me diz que ainda há algum tempo para dormir.
Fecho os olhos, penso em nós mais uma vez e, sem perceber, os pensamentos se transformam em leves sonhos que vão, aos poucos, tomando forma.
No banheiro, duas escovas de dentes se entreolham. Sobre a cama, toalhas molhadas se misturam em meio a risos soltos e um amor diferente dos outros amores.
Cenário de uma vida de sonhos reais, um pra sempre que existe e um futuro que acontece a cada instante.



P.s.: E então você apareceu, enchendo minha alma com novas cores, nos meus olhos mais estrelas e, no coração, um mundo vermelho chamado amor (que é todo seu).

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Lembre da nossa música.


O sol já havia se posto, apesar do cansaço, ela chegou em casa sorrindo. Só passava pela cabeça como era uma garota de sorte. Colocou sua "música" preferida, apanhou duas ou três folhas de um papel bordado, uma caneta de cor bonita e escreveu. Era uma carta. Carta a um amigo. Um anjo! Desses que, aparentemente sem motivos importantes, aparecem na sua vida e dão uma reviravolta que você, por um momento, acredita não aguentar, mas que depois percebe o quão necessário foi isso. Aconteceu mais ou menos assim.
Ela nunca entenderia ao certo o que ocorreu, mas lembrava a todo momento de uma frase que ouvira por aí: nada acontece por acaso!
A cada palavra colocada no papel, um novo sorriso se formava em seu rosto. Sorrisos diferentes, especiais. Sorrisos que colocavam pra fora o que as palavras nunca conseguiriam: uma eterna gratidão por alguém que, de uma forma um pouco avessa, ajudou a salvar seu coração.
Ela lembraria pra sempre.
E sorriria sempre.


P.s.: Obrigada!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Sobre Vinícius e Eu


Que me perdoe o homem que eu amo, mas meu coração hoje é de outro. De um homem que fala sentimentos; aquele que foi abençoado com o dom de traduzir o coração em palavras; que me arranca facilmente lágrimas quando fala, quando canta; um homem que tem o poder de me deixar tonta em cada verso; que parece me conhecer melhor que a mim mesma; um homem que tem o dom do Amor (do amor em todas as suas formas, na sua crua verdade, romântica ou animal, mas amor).
Se me fosse concedido um único desejo, desejaria, com todo meu íntimo, um momento, um segundo que fosse, no qual eu pudesse olhar, só olhar, no fundo dos olhos daquele que eu descobri como sendo a tradução da maior das sensações humanas.
E em meio a meus tantos sonhos, um poema. Um poema sobre Vinícius e eu. Um poema dele para esta que tudo faria se pudesse ser mais um de seus brotinhos indóceis, que daria qualquer coisa por uma palavra com o poeta dos que amam.
A ele, Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, só posso, na minha condição de admiradora incondicional, agradecer por ter, então, mudado minha vida. Por me ensinar a chorar por amor, a cantar o amor, a acreditar no amor, a descobrir o que é preciso para viver um grande amor. Que, principalmente, me fez entender que até eu, quem diria, posso ser uma menina com uma flor.
E, outra vez, que me perdoe o homem que eu amo, mas, dos meus sonhos, queria ter tido eu, uma vida com Vinícius.


P.s.:
"Poeta
Poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo
Fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer
A vida é pra levar
Vinicius, velho, saravá"
(Samba Para Vinícius - Toquinho e Chico Buarque)

sábado, 4 de agosto de 2007

Ao meu Amor

Porque o que eu mais queria mesmo era que se passassem logo uns dez anos, pra eu ver que se tornaram reais os meus planos. Meus planos pra mim e, de uma forma um pouco egoísta (assumo!), meus planos para você. Talvez fique menos feio e mais sincero se eu disser que o que eu mais queria nessa vida é que dez anos se passassem assim logo pra eu ter a certeza de "nós".
Na verdade, o que eu queria mesmo era poder dar um pulinho no futuro, sem ninguem me ver, pra poder te olhar. Olhar você dormindo e ver teu braço ao redor do meu corpo; ver teu sorriso ao ler os bilhetinhos de "eu te amo" - os que eu deixarei pra você - pregados na geladeira, em meio a todos os muitos e muitos ímãs com numeros de disk-qualquer coisa (não sabemos cozinhar, lembra?); ver meu sorriso ao ler os bilhetinhos de "eu te amo" - os que você deixará pra mim - que cairão quando, um pouco atrasada, eu pegar meus tantos desenhos de forma desajeitada. Queria olhar assim, bem escondidinha, você brigando comigo por causa das toalhas molhadas na cama. Me ver brigando com você por causa de mais um atraso. Te ver preocupado nos dias em que eu chegar muda e com os olhos molhados. Me encontrar dizendo palavras confortantes naquelas horas em que você quererá gritar com o mundo. Espiar nós dois fazendo planos futuros e querer dar outro pulo no futuro para conferí-los.
Eu queria mesmo anotar cada detalhe, cada ruguinha nova que apareceu na sua testa, cada tom de cor que terá no meu cabelo, cada lençol guardado no armário, cada desenho da sua coleção de canecas (porque você gosta muito de canecas). Queria poder contar quantos beijos, abraços e carinhos trocaremos; quantos litros de milk-shake o Bob's terá faturado com cada passeio nosso; quantas vezes terei eu quase explodido por não conseguir mostrar tudo que eu sinto por você; quantas piadas cretinas terei eu aguentado; quantas crises minhas terá você aguentado; quantas estrelas teremos olhado, deitados numa grama qualquer, em noites de lua bonita. Queria mesmo poder contar o número de vezes por segundo eu acredito ser a pessoa mais feliz.
Mas fato é que, do futuro, só podemos querer. E do hoje o que eu sei é que, a cada minuto ao teu lado, descubro em mim uma nova célula, mais uma na formação desse órgão (ainda não reconhecido cientificamente) chamado amor e , junto, a certeza do pra sempre que existe.



P.s.:

"...Deverias chamar-te claridade

Pelo modo espontâneo, franco e aberto
Com que encheste de cor meu mundo escuro..."

(Vinícius de Moraes)

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Sobre olhos que inspiram


Quarta feira - algo em torno de seis e meia da manhã -, não diferente dos outros dias, entro no ônibus, cumprimento o motorista. Cumprimento o trocador, passo pela roleta e, num lapso de olhar, meus olhos cruzam com outros, castanhos estes. Nada anormal, a não ser a intrigante imagem com o qual me deparei: usava um agasalho de lã - gola alta - sob outro agasalho, este fechado com zíper, gola alta também, numa lã em tons azulados com alguns detalhes em vermelho. Elegante. Não era muito alto, nariz fino, usava um jeans claro do tipo rasgado e um sapato social marrom, aparentando uma personalidade autêntica.
Os cabelos lisos um pouco bagunçados e a barba mal-feita ilustravam o semblante sonolento. O caderno no colo - capa amerala, desenho de um carro que não me lembro o modelo - dava idéia de aula. Talvez fosse para faculdade. Parecia mesmo universitário.
Vez ou outra percebi que olhava, discretamente, em minha direção. Um olhar tão intrigado quanto o meu. Não consigo imaginar o que passava por trás daqueles olhos castanhos que miravam a janela tão distraídos.
Era bonito.
O ponto em que eu desceria se aproximou. Levantei-me, toquei o sinal e esperei, enquanto olhava, uma última vez, aquela imagem. Desci.
Gostaria de saber qual terá sido seu destino, por que ruas passou até chegar ao lugar certo, o que escreveu nas folhas do caderno, a quem cumprimentou e sorriu, quem era.
Não o verei novamente, mas não esquecerei do moço que, numa quarta-feira qualquer, sem a menor idéia que o fazia, me inspirou um novo texto.
Mais um dos mistérios da arte.



P.s.: Talvez a inspiração esteja guardada nos olhos dos que vêem com o coração. Poetas. Sonhadores. Nós.

terça-feira, 31 de julho de 2007

À Bailarina Sem Sapatilhas‎


Querida bailarina que chora os pés descalços, o palco da vida não quer saber se tu bailas com as pontas de uma sapatilha ou com as pontas dos dedos dos pés, ele exige que bailes.
A melodia do amor que embala tua dança pode, muitas vezes, se mostrar como um ruído insuportável e entonteante, mas tu tens mãos para tapar as orelhas. Já pensaste em ouvir com os olhos?
Lembras daquelas antigas caixinhas-de-música em que, ao serem abertas, tocam uma som leve e tu vêdes uma dançarina a rodopiar? Algumas trazem apenas uma dançarina, outras um casal. Apesar da diferença em número de bonecos, a música continua a ter a mesma serenidade. O mecanismo que dá vida aos dançarinos do artefato é o coração que bate em teu peito.
Às vezes tu ries, em outras, choras. Não podes evitar que tropeces ou caias, mas nem por isso deves render-te ao chão. A verdadeira bailarina não é a que nunca torce o pé, mas a que dança apesar da torção.
Não deixes que teus pés descalços ceguem teus belos olhos que buscam estrelas, nem parem as engrenagens de teu coração. Dances em uma sala com espelhos e verás o cisne que és, em meio a estes tantos patos.
Confio em ti.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A menina que colecionava abraços

Quase todo mundo tem uma coleção. Tem gente que coleciona bonecas, tem gente que coleciona latinhas, tem os que colecionam selos, alguns colecionam cartões, outros, carrinhos; tem até quem colecione botões (de todos os tamanhos, cores e modelinhos diferentes). Ela também tinha a sua coleção: colecionava abraços!
Desde bem pequenininha, sempre fora uma menina muito carinhosa e serelepe, que adorava dar abraços. Mal podia ver a mãe distraída pendurando roupas no varal e ia ela correndo agarrando suas pernas num abraço apertado; o pai chegava do trabalho e já estava ela esperando na porta para dar um pulo em seu colo e outro abraço. Adorava fazer um paparico nas irmãs mais velhas. Mas, o que ela mais gostava de todas as tantas coisas que ela adorava, eram os almoços de domingo na casa dos avós: lá tinha tios, tias, primos pequenos, primos grandes, madrinhas e padrinhos (os dela e os dos outros), sem esquecer a Bituca, a cachorrinha vira-lata que morava no quintal de terra. Era o paraíso! Abraçava todo mundo uma, duas, três, quatro vezes pelo menos.Era como se cada abraço renovasse as coisas boas e coloridas que brincavam dentro dela.
Um dia, ganhou do pai uma máquina fotográfica. Não achou graça, mas começou a levá-la em todos os almoços da vovó. Curiosa para saber como ficariam, esperou o dia em que o pai mandara o filme para revelar.
Até então, nada demais: fotos da vovó cozinhando e o tio pegando batatinhas escondido, as irmãs mais velhas trocando olhares com os primos bonitos, a Bituca enterrando um ossinho... mas, assim como num estalo, seus olhinhos infantis brilharam. Brilharam tanto que pareciam soltar faiscas. E um sorriso largo e feliz brotou daquela boca tão pequenininha.
Ali, no fundinho daquela foto, atrás das tias fofoqueiras, um detalhe quse imperceptível: o vovô e a vovó, bem pequenininhos, num abraço deseperadamente gostoso! E ela entendeu que não poderia ter ganho melhor presente em toda sua vida! Levava agora sua máquina fotográfica para cima e para baixo, em todos os lugares que ia. Fotografava discretamente cada abracinho que encontrava, fosse em casa, no quintal dos vizinhos, na escola, nas missas semanais, as pessoas nas ruas. E assim foi, ano após ano.
Quando cresceu, trocou sua câmera por uma mais atual e resolveu começar um curso de fotografia na cidade grande em que agora vivia. Os almoços de domingo da vovó eram agora passeios solitários no parque, observando os velhinhos jogando pipoca aos pombos e as crianças andando de bicicleta.
Nem por isso se sentia solitária, porque - diferente de qualquer um - ela tinha em casa, em cada parede, o maior acervo de carinho que alguém poderia ter no mundo inteiro.


P.s.: Um abraço gostoso tem efeito de um furacão no organismo: eleva o nível do hormônio ocitocina - que influencia comportamentos e emoções -, reduz a pressão sanguínea e ainda diminui os niveis de cortisol - o hormônio do estresse.
Além da sensação de conforto e bem-estar, o abraço ainda diminui o risco de problemas do coração, já que ajuda a controlar a pressão do sangue.
As mulheres são as mais beneficiadas, nelas a variação hormonal durante um abraço é bem maior.

(texto do p.s.: campanha "Abrace o Mundo", feita para minha aula de Lógica e Argumentação, em 2005 - a fonte foi uma revista Capricho que eu tinha xD)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Do pra sempre que existe II - sobre dois corações que são um

Quem passava por ele na rua se encantava: passos lentos, semblante contente, olhos brilhando. Vestia o velho fraque que ficava guardado para ocasiões especiais. Ajeitava a todo momento a gravatinha borboleta, ligeiramente torta. Um presentinho na mão e muitos pensamentos na cabeça. Não se completa sessenta e um anos de casamento todos os dias. Principalmente se tratando de sessenta e um anos de um amor puro e feliz, como o deles.
O presentinho levado pelas mãos trêmulas era uma singela lembrança para recordar o que viveram juntos. Mandara restaurar a correntinha que dera a ela no primeiro encontro. Numa época em que primeiros encontros significavam intenções sérias. Não como nos dias de hoje em que as pessoas não sabem mais o valor de um sentimento.
Ele amava cada detalhe dela, cada olhar de carinho, cada toque cuidadoso, cada beijo na testa antes de dormir, cada vez que dançavam ao som da mesma música em meio aos últimos raios de sol que o fim de tarde trazia. Ele a amava como jamais amaria a si mesmo.
Não se envergonhava de dizer que ela fora a primeira mulher que conhecera e que seria a única em toda a vida. Porque se a vida tinha algum sentido, era por causa dela.
As meninas da família cresceram sonhando um dia viver um amor assim.
Enquanto andava, sorria ao pensar em cada momento da vida que tinham, até se aproximar do edifício onde sempre moraram. A porta do apartamento estava propositalmente entreaberta; do corredor ele podia ouvir as notas daquela mesma música. As flores sobre a mesa confirmavam o quão especial era essa data.
E lá no canto da parede, próximos a janela, dois olhinhos sinpáticos que mais pareciam duas estrelas, davam luz a um sorriso que guardava um convite especial.
E os dois dançaram mais uma vez, enquanto, serenamente, ele abotoava a velha correntinha ao redor do pescoço dela.



P.s.: Porque o amor não é feito de presentes caros, restaurantes chiques ou viagens pelo mundo. O amor se faz na breve distância entre dois corações que batem no mesmo compasso e só precisam sentir um ao outro para estarem vivos. Talvez seja esse o segredo do "pra sempre".

Das máscaras cotidianas

Cinco e meia da manhã, como de costume, o despertador tocou. Apesar da empolgação por ter chegado, enfim, a sexta-feira, alguma coisa parecia falar em seu íntimo que não levantasse. Mas nada podia fazer.
Levantou-se, lavou bem o rosto para levantar os ânimos, não comeu nada diferente do que costumava comer todos os dias, saiu. O dia, ainda escuro, estava diferente. Percebia-se que alguma coisa não estava muito certa. O vento forte e a neblima a acompanharam até o ponto aonde passaria o ônibus. Percorreu todo o caminho estranhamente pensativa.
No local de trabalho, nada aparentemente anormal. Ligou o computador, abriu a caixa de e-mails. Nada novo. Leu as notícias que o jornal trazia. E pensava.
Ouviu um ruido. Vinha da maçaneta da porta principal. Mais alguém havia chegado cedo. De repente, o que não havia entendido até então começou a ter sentido. O proplema não era a rotina, ou o que fazia exatamente, mas as pessoas.
Era uma sensação quase insuportável sentir aquele sorriso tão falso quanto o da saudade se aproximando, dizendo um "bom dia" assombrado e emitindo uma energia sugadora de energias boas.
Impressionante como uma unica pessoa nem tão alta assim, nem tão bonita assim (realmente, não era bonita, talvez fosse culpa do sorriso), nem tão interessante assim, conseguia tirar tudo que há de bom da alma de outra.
Nada a fazer, a não ser contar os minutos para o fim do dia. Alguns recomendavam um bom banho de sal grosso, mas o simples fato de lembrar por alguns instantes do velho ditado que as avós contavam tem fundamento, já aliviava: "Menina menina, peixe morre pela boca!".
-"Tomara que fisguem logo essa daí!"
E voltava ao trabalho, tentando prestar mais atenção na musica baixa do que nas gargalhadas ao redor.


P.s.: "Não é o desafio que define quem somos nem o que somos capazes de ser, mas como enfrentamos esse desafio: podemos incendiar as ruínas ou construir, através delas e passo a passo um caminho que nos leve à liberdade."(Richard bach)

terça-feira, 24 de julho de 2007

Das linhas da amizade

O telefone tocou. Era tarde e ela já dormia, talvez até sonhasse. Podia não atender se quisesse, mas preferiu saber do que se tratava. Sonolenta, não lembrava bem o que dizia, mas gostava. Sem ao menos perceber ja se encontava completamente acordada, e sorria.
Conversa longa. Comentários sérios, brincadeiras cretinas, silêncio constrangedor. E assim foi. Aqueles mais ou menos duzentos minutos não pareciam bastar quando tantas palavras e tantas idéias surgiam como mágica na cabeça.
Ria baixo pra não incomodar ninguém. Se divertia tanto com aquilo tudo, que nem sequer se lembrou que o despertador tocaria dali a poucas horas.
Do outro lado da linha, ele que não tinha noção exata do que o fez pegar o telefone e discar o número dela, tão tarde da noite, percebeu então que nada é por acaso. E entendeu que valia a pena. E entendeu também que tudo que ela dizia era sincero. E se sentia tranquilo, apesar de tudo.
E os dois descobriram juntos que amizades pra valer não são feitas de palavras e conselhos apenas; mas de sorrisos e silêncios, quando o coração se permite falar e um sopro vale mais que quelaquer palavra ou intenção.



P.s.: Encontrar o verdadeiro sentido escondido dentro de si mesmo pode levar mil anos ou uma breve madrugada com cheiro de flores brancas, junto a alguém que só se quer bem.
(créditos do p.s. - Outro Viés de ilusão)

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Das coisas que a gente não escolhe


E quem a via de longe, se perguntava o motivo dos olhos vermelhos. O motorista do carro que precisou frear para não acertá-la, não poderia imaginar o que a fez tão distraída. Qualquer menina que há tanto coloca o famoso Santinho de cabeça pra baixo, teria inveja dela. Mas ninguém poderia realmente imaginar as confusões e contradições que se misturavam naquele coração.
Ela se consideraria com sorte pelo cara certo ter aparecido na sua vida. Ela se consideraria com sorte, se já não tivesse aparecido um cara certo antes, aquele que incontestávelmente se tornara o amor de sua vida.
Não há espaço para dois amores em um coração só. Ele sabia disso. E sabia que não podia querer mais do que o carinho da amizade dela, sabia que não seria justo querer mais. E respeitava.
Com o coração apertado, ela não tinha o que fazer, a não ser guardar eternamente um afeto especial e desejar, com tudo que podia, não perder o amigo que poderia então ter encontrado, enquanto somente uma palavra se formava em sua cabeça.
"Obrigada"



P.s.: “A vida inteira eu me lembrarei de você, e você se lembrará de mim. Assim como nos lembraremos do entardecer, das janelas com chuva, das coisas que teremos sempre porque não podemos possuir.”
(Brida - Paulo Coelho)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Dos dias em que os por ques não vêm com porques


Tem dias em que simplesmente não se sabe.
Não se sabe que horas são, não se sabe o que fazer no próximo segundo, não se sabe qual ônibus pegar ou em qual ponto deve descer. Não se sabe o que pensar, o que falar, o que ver. Não se sabe o que ser.
No espelho o reflexo de um rosto vermelho e molhado por lágrimas compostas de dores, amores, perdas, ganhos e mais alguma coisa dessa matéria confusa chamada pensamento. Mas também não se sabe.
Dos tons de cinza que o dia parece ter, se destaca o dos olhos. Opacos. Os passos, os atos... Mecânicos.
Há quem chame de crise existencial, uns arriscam TPM (no caso feminino, claro!), tem também os que acreditam ser coisa de cabeça fraca, mas eu particularmente entendo como uma incrível carência de si mesmo.
Não sei.


p.s.: o problema é quando esses dias duram semanas.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Dos escritos - parte I



Ela nunca esqueceria aquele 25 de agosto de treze anos atrás (um dia depois que completara seu décimo aniversário), quando sua irmã mais velha sumira pelo mundo, mas deixara um último presente: em cima do velho sofá azul, um caderno pequeno de muitas folhas levemente amareladas e uma capa bordada com um bilhete na primeira página, que dizia alguma coisa sobre buscar a felicidade independente do julgamento das pessoas, mesmo que fosse preciso abandonar tudo que conhecia se acreditasse não estar ali e nunca esquecer da importância de saber amar e entender que, apesar do tempo e da distância, há amores que são eternos, como o amor que uma sentia pela outra.
Ela nunca esqueceria...

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Dos (nossos) romances de cinema


Fim de semana, nada socialmente interessante pra fazer. Por que não passar na locadora e pegar um filmezinho romântico dessa vez? Assistir com a mamãe, com a amiga que também não ia fazer nada, com o namorado de vez em quando, sozinha que seja. Por que não?
Tem a personagem principal, e tem a melhor amiga. E tem a principal se fazendo de melhor amiga e a melhor amiga se fazendo de principal. Tem o bonitão que não vale nada. E tem os olhos azuis (ou da cor que for) do cara bonitinho que sabe fazer a principal (ou a melhor amiga, em certos casos) se sentir a pessoa mais feliz do mundo. Tem os Jude Law's e as Cameron Dias' (e os milhares de ouros atores preferidos), tem os velhinhos que dão sempre os conselhos certos.
E tem os beijos, os abraços, os sorrisos. Estes últimos não só dos personagens, mas os seus. Sem esquecer dos chocolates e pipocas e besteirinhas que sempre estão do lado.
Uma gargalhada aqui, uma lagrimazinha ali, uma trilha sonora que te balança toda, uma estória que você assiste pensando ser tudo que você precisava naquele momento.
E tem os créditos do final. E é depois deles que vem o filme em si, em todas as cenas que passam pela sua cabeça. Não só pela vontade de ter um final mágico, mas pela certeza de que vale a pena tentar (pelo menos isso) viver um final desses todos os dias. Porque possível é, mas às vezes a gente esquece. E num fim de semana qualquer sem nada socialmente interessante pra fazer você pega um filmezinho de amor na locadora e relembra de tudo.
E se sente assim, românticamente feliz.



P.s.: "O amor é filme; eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama."

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Da felicidade que fica ao lado (e que nem sempre a gente enxerga)


Ela, que é apaixonada pelo menino mais bonito da escola, olhava de longe. "Ele é tão bonito!"
Ela, que sempre viveu por um amor inatigível, observava de longe, pensativa. "Um dia ele vai olhar pra mim! Eh! Vai olhar!"
Ela, que se matava aos poucos cada vez que o via com outras meninas, sofria de longe. "Oferecidas!"
Ela, que só tinha ele na cabeça, sonhava de longe. "Vai ver ele até gosta de mim também, mas não tem coragem de falar. Tenho certeza que é isso!"
Ela, que rabiscava corações maltraçados pelas folhas dos cadernos, tentava esconder algumas lágrimas que insistiam em escorrer pelo rosto avermelhado. "Será que um dia eu vou ser feliz?"
Ela, que só pensava no menino mais bonito da escola e insistia em viver de amores inventados e sonhos por trás de lágrimas, não conseguia ver que ali, não tão longe, um par de olhos castanhos de um rosto não tão bonito como o do menino mais bonito, mas tão especial quanto, olhava para ela com um coração cheio de bons sentimentos e um bilhete de entrada pra felicidade que ela sempre acreditou existir.


p.s.: "Saber amar, é saber deixar alguém te amar."

terça-feira, 12 de junho de 2007

Das estrelas que também amam


Ele repara em cada detalhe das florezinhas coloridas estampadas no pijama amarelo dela. Percorre todo o corpo com os olhos, desenhando cada linha na cabeça. E enquanto alisa os cabelos dela, que dorme tranquila, sorri.
Ela gosta de acordar primeiro e, ainda sonolenta, dar um beijo na pontinha do nariz dele. É como um despertador para ela, que então abre os olhos e fica bons minutos admirando e contornando com leveza os traços do rosto dele, que dorme tranquilo.E sorri.
Pensamentos perdidos enquanto olham o teto coberto por estrelinhas fluerescentes do quarto dela.
- Impressão ou as estrelinhas estão coladas duas a duas?
- Impressão não.
- Por que duas a duas?
- Não conseguia mais olhar cada estrelinha no seu canto. Parecia tão solitário. Talvez as estrelas também amem.
- Engraçado! - um leve sorriso no canto dos lábios - Faz algum sentido.
- Já reparou como tudo fica tão mais bonito quando se está junto?
- Nós, por exemplo?!
- Eh...
- Te amo!
- Também!
Depois de uma ajeitada no edredon embolado, se abraçam para dormir mais um pouco. Sorrindo.



p.s.: feliz dia dos namorados :)

domingo, 10 de junho de 2007

Dessas coisas que a gente tem que aguentar


Saudade é mais ou menos como aquela amiga falsa que sempre aparece na vida. No começo é até romântico, faz bem pra alma, nutre o sentimento. Mas é conviver um pouquinho mais com ela que logo se sente a facada nas costas, no caso, no peito. E quando se vê, não tem mais jeito, o estrago foi feito. E o coração parece ser apertado por uma mão gigante que não se abre. E dói. Então um dia a saudade vai embora. É tudo alegria!
Mas uma breve piscadinha e lá vem ela com a mesma carinha de boa samaritana. Você jura pra si mesmo que não vai sentir aquilo tudo outra vez, se atreve até a soltar um sorrisinho amarelado (tão falso quanto o dela). E numa outra piscadinha, volta a mãozona pra apertar o coração.
E fica assim, nesse vai e vem que a saudade toma conta, até chegar a hora em que algum feliz faz questão de se intrometer em seu lacrimoso martírio (atrevido!) e solta alguma coisa do tipo "Dói? Então você tá vivo!".
Já reparou como o mundo para nessa hora? É quando você entende (pelo menos tenta) que esse é mais um dos contratempos que a vida coloca pra testar sua força (ou seu cinismo) e ver com que cara você sai dessa.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Do pra sempre que existe

Os passos ja não eram tão leves, mas a sincronia se mantinha impecável; as mãos unidas transportando sentimento de um ao outro; os corpos num balanço encantado; a música era a mesma.
Os últimos raios de sol batendo nas jenelas do velho apartamento traziam o fim da tarde. Deitada no ombro dele, olhando aquele céu em tons alaranjados ela se lembrava da primeira vez que dançaram ali, naquela mesma sala, ainda sem móveis, um pouco sujos por causa da poeira da nova casa, há quase sessenta anos.
Os dois corações ja não tão jovens batiam no mesmo compasso, embalando um sentimento inexplicável, enquanto dançavam.
E sempre foi assim, e sempre seria assim.
De cabeça baixa ela sorria. Ele, com um beijo na testa, a agradecia silenciosamente pelo amor que jamais entenderia, mas que tinha certeza ser a coisa mais preciosa que poderia ter na vida.


p.s: "Everybody got something that they want to sing about, laugh
about, cry about. It's true. For me it's you."
(Train)

domingo, 3 de junho de 2007

Sobre o mundo que te faz feliz - parte II (do tempo que pode voltar)


Os "x" vermelhos marcados no enorme calendário pendurado na parede do quarto mostravam que o dia havia chegado. O coração saltava. Ela comemorava em silêncio. O tempo era só dela, que se sentia de novo a menina de onze anos de idade como um dia ja fora, anciosa pelo vestido e os sapatinhos brancos de missa de domingo (não que ela gostasse tanto assim de missa, mas "ele" estaria lá).
A menina grande que se tornara já não precisava esperar pelos cultos de domingo; os sapatinhos brancos eram agora vermelhos; o vestido doce era então qualquer coisa que a deixasse confortável; os olhos eram os mesmos, ainda brilhavam como da primeira vez que o viu brincando na praça vestindo aquelas adoráveis calças curtas. Será que ele se lembraria dos sapatinhos brancos? Talvez lembraria do laço de fita cor-de-rosa que prendia a cintura do vestidinho dela (pegou o laço que ainda guaradava e colocou-o cuidadosamente na bolsa). Junto às inúmeras dúvidas infantis que percorriam a cabeça, uma a assustava: "E se ele não gostar de mim agora?!"
Olhou-se mais uma vez no espelho, certificando-se de que estava tudo em ordem, mirou o calendário novamente, fechou os olhos, suspirou.
"Ele voltou."
Luz apagada, duas voltas na fechadura. Segurando o coração, ia ela ao encontro do que jurou não perder jamais.

sábado, 2 de junho de 2007

Do que te congela a alma


O frio veio forte. A pele sentia com as rachaduras feitas pela baixa temperatura. O vento uivava. Os dentes se cumprimentavam. Tremia. E era assim por dentro. A saudade incomodava. A casa estava cheia, a solidão assídua marcava presença.
A música ajudava a esquentar um pouco, umas e outras lágrimas semi-congeladas brotavam nos olhos perdidos em lembranças, enquanto la fora a cidade queimava sob o sol do dia mais quente dos últimos sete anos.
O som do relógio de pêndulo fazia o tempo voltar. Perdida nos minutos que pareciam horas, a mesma frase circulava pela sala:
"Como seria bom se você estivesse aqui."

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Sobre o mundo que te faz feliz - parte I


A menina que era só mais uma entra as outras meninas não era só mais uma menina entre as meninas dali. A diferença estava sutilmente escondida naqueles tímidos olhos verdes. Os olhos guardavam a chave que abria a porta do mundo dos sonhos que ela tinha. E como eram bonitos eles (os olhos e os sonhos). E por alguns segundos aqueles olhinhos paravam. paravam em meio a toda aquela confusão do mundo real que girava ao redor. Ela pensava, imaginava. Por alguns segundos esquecia completamente que havia uma realidade toda em plena atividade. E ela gostava quando acontecia, o mundo real era assustador demais. Seu mundo pararelo dos sonhos era um aliviador nesses momentos. Mas o que de tão importante acontecia no mundo paralelo da menina? Era ali que a vida se mostrava de verdade. Arco-íris em vez de nuvens negras, borboletas azuis em vez de mariposas, aguas correndo pelas cachoeiras, terminando em uma queda suave e fresca, arvores bem verdes com flores coloridas, sorrisos, vôos rasantes de pássaros cantores, as pessaos falando coisas boas umas das outras, mesas bonitas cheia de coisas gostosas pra todo mundo, do mesmo jeito, todo mundo assim na seu mais sincero eu, sem medo de ser diferente, porque lá o diferente era bonito, e o que ela gostava mais: sentar no alto de um colina bem verdinha pra ver o pôr-do-sol, sentindo a brisa no rosto, esperando o sinal das primeiras estrelas e o sorriso da lua. Ela pensava em coisas lindas! Então ela acoradava com um som estranho, muito diferente dos cantados pelos passaros... era a vida de verdade dando um cutucão, insistindo em dizer que sonhar era ingênuo, coisa de criança. Pobre vida real que não entendia que só é feliz quem cresce criança! Ela ficava triste quando acordava e percebia que aquele mundo bonito era tão diferente do mundo real, e, pior, ela não tinha escolha, o mundo real era real demais. E um dia ela, andando normalmente, viu alguem do mundo dos sonhos andando perto. Ficou confusa. Será que sonhava? Ou o mundo dos sonhos não era tão imaginário assim. Pensou muito, quase não conseguia dormir, tentando entender o que acontecia. Tinha medo de acreditar que era de verdade que o mundo dos sonhos podia dar um pulinho no real. E se fosse só mais uma imaginação dela???
E um dia ela acordou. Acordeu dentro dela mesma. Percebeu enfim que os sonhos podem ser de verdade, que ela não precisava ter medo, porque o que separa o sonho do real, o bonito do feio, são os olhos (por isso eram os olhos que guardavam a chave). As mariposas continuariam sendo mariposas se ela quisesse, mas poderiam ser borboletas multi-cor se olhasse mais de perto, as nuvens negras podiam se transformar em tempestades, ou em chuva de verão se ela quisesse, e todo mundo podia ser triste ou feliz, ela podia ser feliz se quisesse. E ela se permitiu.

E entendeu que se apaixonar era inevitável.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

(...)Seja honesta uma vez na vida: confesse. Que você não é nada tão wild quanto se vende. Que não sabe falar tão bem inglês assim. Que fez escova progressiva. Que tem dermatite. E enfim você terá alguma paz, pois se reconhece humana, e não a barbie boba que você procura ser. Acredite: idiotice só te faz charmosa para os cafajestes. Se continuar assim, nunca vai aparecer aquele cara bacana que você gostaria que aparecesse; para lutar por você, até te conquistar, e destruir essa tua linda silhueta com uma gestação de 15 quilos.

É triste, amiga Mulherzinha, mas você terá que abrir mão da máscara de rímel que cobre a sua verdade."
(Fernanda Young)

sexta-feira, 2 de março de 2007

memórias de um sofá azul


"...não perdia um pedacinho de tarde, num sofá azul, enorme, (daqueles que afundam...) a ver as ondas a enrolar, através das vidraças..."


"...
numa preguiça angustiosa, encontro-me totalmente ao dispor do sofá azul desbotado para umas grandes roçadelas, dormidelas ..."


"
Sentada num sofá azul fechava os olhos levemente maquiados - também de azul - e se deliciava com o odor de mangue buscado na memória da imaginação..."


"
Ainda continuo a comer laranjas à tarde, sozinho no meu sofá azul, a ouvir uma boa música, relaxado a pensar em comprar chocolates..."

"
Havia um sofá azul na comprida casa de jantar da Rua Coelho da Rocha, ... Ele sentava-se no sofá azul e deixava que eu lhe pusesse uma toalha ao pescoço. ..."


porque é certo que em todo sofá há uma lembrança...
e em toda lembrança há um sofá azul...


Fragmentos de textos encontrados numa busca por "Sofá Azul" no Google. Se algum deles for seu, me avise para que eu possa colocar os devidos créditos.